Minha ida ao Fórum Internacional dos Engenheiros Sem Fronteiras

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Minha ida ao Fórum Internacional dos Engenheiros Sem Fronteiras

Neste post o Diretor do ESF-Rio, João Henrique Azevedo, da seu relato da experiência de estar representando a organização ESF-Brasil no Forum Global Internacional EWB (Engineers Without Borders, sigla em inglês para ESF) e EWB-USA Summit (http://http://summit.ewb-usa.org/) que aconteceram entre os dia 17 a 19 desse mês em Denver-CO.

 

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Figura 1- Representantes do Brasil, México, Kosovo, Líbano, Austrália, Canadá, Inglaterra, Índia, França, Malasia, África do Sul, Gana, Estados Unidos, EWB-International da Macedônia, além das empresas Alcoa, Tetra Tech e Boeing reunidos no ForumGlobal EWB-I.

 

“Foi uma experiencia fantástica poder apresentar a organização ESF-Brasil, dividindo experiências e as melhores práticas com representantes da organização no mundo inteiro. Estiveram presentes representantes do México, Kosovo, Líbano, Austrália, Canadá, Inglaterra, Índia, França, Malásia, África do Sul, Estados Unidos, além do representante do EWB-International da Macedônia.

 

Fiquei encantado com o trabalho que vem sido feito por cada organização, porem o que mais me chamou atenção e me deixa ainda mais envolvido, é como cada organização trabalha de uma maneira e tem visões diferentes de como os Engenheiros sem Fronteiras devem trabalhar.

 

Na França, foca-se muito no posicionamento do engenheiro diante da sociedade, focando no seu papel fundamental e impacto de suas atividades. Existe um questionamento constante dentro da organização, de quando se deve ou não aceitar um patrocínio, pois apesar de o patrocínio ser inegavelmente essencial para a organização, muitas empresas buscam essas parcerias de modo a tentar maquiar o que elas mesmas já fazem de errado dentro da empresa. Ou seja, até aonde essas empresas usam o patrocínio como artifício para tapar buracos que elas mesmas cavam e em contra partida ainda ganham um marketing e fama de “responsável social”.

 

Na Austrália, a organização faz um trabalho fascinante aonde todos os projetos são focados e passam por metodologias e processos inovadores de design aonde o ser humano é sempre colocado como componente central do projeto, coisa que os engenheiros na maioria das vezes esquecem e realizam projetos no caminho que mais lhe convém.

 

No México, foi possível observar como os projetos da organização podem se abranger de forma indeterminada, aonde um pequeno projeto, pode crescer e se tornar essencial para toda a comunidade aonde vivemos. Atualmente a organização desenvolve a simulação e o projeto de todo o abastecimento de água da região onde está instalada, que sofre de uma situação parecida com muitas cidades no Brasil, aonde se tem muita água no período de chuva, porem racionamento de água no período de seca. A modelagem do escoamento e consumo de água é essencial para essas regiões, e a organização exerce um papel fundamental nessa caminha, gerando um impacto social monstruoso.

Em Kosovo, ficou evidente como uma organização pode florescer e fazer um trabalho incrível mesmo no meio de uma situação politica econômica tão complicada como a do País. Fiquei intrigado como Kosovo que se tornou uma república independente em 2008 e ainda não é reconhecido pelo Brasil. Apesar de ser uma pequena organização, fica claro que a essência do ESF é ajudar o próximo e não é preciso uma grande organização para gerar impacto positivo e se sentir preenchido com o trabalho realizado.

 

No Líbano, em um país tão sofrido pelos preconceitos, o representante relatou a dificuldade que foi chegar até os EUA tendo passado por revistas minuciosas em todos os aeroportos. O país tem fronteira com Israel, Jordânia, Síria e Iraque, mas que apesar disso, diz não ter nenhuma ligação direta com todos os atentados recentes, muito pelo contrário, sofre com essa guerra sem fim e acaba pagando por estar nessa zona. Para mim, foi uma apresentação tocante, abrindo os olhos de uma pessoa do ocidente para o que um país do oriente médio pode oferecer e como uma organização da rede EWB-I está fazendo um excelente trabalho independente de qualquer condição adversa.

 

A apresentação da Índia foi bastante impactante quando se diz respeitos aos números daquele país, com quase 1.3 bilhões de habitantes, 6 vezes a população do Brasil, com mais de 100 milhões na zona de pobreza, metade da nossa população. Mais de 300 milhões não tem acesso à energia elétrica, mais de 400 milhões não tem acesso à água potável. Seguindo o raciocínio, levanta-se uma questão bastante comentada no congresso e certamente pelos núcleos brasileiros. Até aonde o governo tem responsabilidade pelo suprimento dessas necessidades para a população e qual deve ser o limite para o posicionamento da nossa organização diante desses fatos?

 

Identifiquei-me bastante com a apresentação da África do Sul. Está entre os países mais ricos do continente africano, porém sofre com a desigualdade social que é evidenciada no contrates de moradias ricas e pobres que se misturam na paisagem, assim como o Brasil. Um ponto interessante tocado na apresentação foi até aonde nossos projetos são realmente prioridade e vontade da população em adota-los. Quando realizamos um projeto, acabamos concentrando nossos esforços na resolução do problema e no enriquecimento técnico dos voluntários, mas esquecemos de muitas vezes de abordar a população para a real necessidade e entender as peculiaridades de cada comunidade. Ele deu um exemplo claro de alguns projetos que tiveram que ser cancelados, após manifestações contrárias da comunidade. Este pensamento vai de encontro ao trabalho que é realizado na Austrália, aonde o design do projeto é feito colocando o ser humano no centro do projeto. Fica evidente que projetos realizados com essa metodologia, podem evitar situações como as que foram passadas na África do Sul. Dessa forma, todo projeto precisa ter uma componente educacional e a abordagem deve tornar o ser humano como centro do projeto.

 

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 Figura 2 – Apresentação do EWB-South Africa com o presidente David Ming. O slide mostra que os projetos devem sempre ter uma componente educacional e uma abordagem centrada no ser humano.

 

Para os Estados Unidos foi reservado um tempo maior de apresentações, feitas por 4 diferentes núcleos. Além do trabalho incrível que fazem, o que mais me chamou atenção foi o tempo em que o projeto é implementado. A grande maioria dos projetos americanos são realizados em 4 ANOS. Dessa forma, os estudantes ficam praticamente toda sua formação envolvidos no mesmo projeto. Apesar de os projetos da organização serem feitos em outros países, de acordo com eles este não é o fator predominante para essa extensão de quatro anos, mas sim pelo fato de ser um trabalho voluntários e as viagens estarem sujeitas aos horários de estudo e trabalho dos voluntários. O ponto que quero chegar é que muitas vezes reclamamos na organização que os projetos são demorados, mas que este é um aspecto que deve ser levado em conta e será comum para qualquer núcleo por sermos voluntários. Portanto, devemos nos acostumar dentro da organização com projetos de longa duração.

 

Ficou ainda mais claro a diferença de núcleo em países Desenvolvido e países Em Desenvolvimento. Os países desenvolvidos como EUA, Canadá, Austrália, França e Inglaterra, buscam sempre projetos em países Em Desenvolvimento. Já no nosso caso, entramos na categoria de países Em Desenvolvimento, assim como Índia, África do Sul, Malásia, Líbano, Kosovo e México, que não precisam ir longe, pois o problema está ao se atravessar à rua na própria comunidade, concentrando seus esforços com a população local. Outro ponto interessante tocado e que está em pauta para a organização EWB-I, foi como poderemos nos unir para resolver problema de comum interesse entre organizações de países desenvolvidos e em desenvolvimento. Muitas vezes as organizações de países desenvolvidos realizam projetos em países em desenvolvimento, sem que ao menos a organização local já existente tenha conhecimento. É primordial que a organização internacional realize essa integração, pois a organização local exerce um papel de facilitadora, além de estar se envolvendo em um novo projeto.

 

Além da oportunidade de estar junto de representante do mundo inteiro, foi possível estabelecer contato com grandes empresas e potenciais patrocinadores para organização no Brasil. Esteve presente um representante da Alcoa, uma das gigantes de alumínio do mundo, nosso patrocinador do projeto Abrigo Sustentável no Rio de Janeiro, além do provedor das bolsas e patrocinador principal do Forum Global EWB-I. Também tive contato com representantes da Tetra Tech, maior empresa de abastecimento e tratamento de água do mundo, trazendo uma nova oportunidade de patrocínio para aos núcleos do Brasil (saiba mais: http://goo.gl/S4CZW5). Também estabeleci contato com representantes da Boeing, CH2M, Scheneider, MWH, Trimble, dentre outras.

 

Para finalizar, deixo aqui uma reflexão gerada por um documentário passado no congresso cSnapchat-6549310526487860846hamado Poverty Inc. (website: http://www.povertyinc.org/). Estou em contato com os produtores do filme para trazer este documentário para o Brasil. O filme faz uma crítica ferrenha ao sistema de ajuda global, ou o que ele chama de “indústria de bilhões de dólares da pobreza”, pois não só não conseguem atingir sua missão, mas muitas vezes fazem mais mal do que bem. Entre os culpados: organizações sem fins lucrativos. Inclui entrevistas com líderes comunitários, empresários, agricultores e outros, e argumenta que os gestos bem intencionados por instituições de caridade e governos no Ocidente têm prejudicado as economias locais nos países em desenvolvimento. Porque? Pois apesar de que em um momento emergencial essas ajudas sejam necessárias para a sobrevivência da população, em um segundo momento estas acabam por atrapalhar o desenvolvimento da comunidade, no sentido de que tudo que é doado sem esforço, e quem vendia aqueles produtos localmente ficam sem mercado e dessa forma todo o giro econômico sucumbe e a comunidade não se desenvolve. Dessa forma, abro um caminho de discussões para saber até aonde nossos projetos se concentram em dar o que não se tem, ao invés de ensinar a comunidade a ter o que eles precisam. Na opinião da EWB-I, é preciso rever e voltar o foco dos trabalhos que fazemos para o real desenvolvimento da comunidade e empoderamento local, para que as pessoas tenham na verdade uma via alternativa de trabalho e vida, do que somente entregar um produto que na nossa visão pode estar beneficiando a comunidade, mas a longo prazo poderá simplesmente atrapalhar a real sustentabilidade econômica local.”

 

Escrito por João Henrique Azevedo, Diretor do ESF-Rio e coordenador Projeto Abrigo Sustentável.

 

 

EWB-Summit 2016

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